REMAR: histórias de transformação e recomeço que devolvem esperança e dignidade

Em Munhoz de Mello, instituição acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade e dependência, oferecendo tratamento, disciplina, trabalho, convivência e, sobretudo, uma nova oportunidade de vida

Por Marcelo Soares

Em meio à rotina tranquila do interior do Paraná, o município de Munhoz de Mello abriga um trabalho que tem como principal propósito oferecer uma nova oportunidade a pessoas que, em algum momento da vida, perderam o caminho e precisam de ajuda para recomeçar.

É neste município que está instalada uma das unidades da REMAR Brasil, organização cristã que atua no acolhimento, recuperação e reinserção social de pessoas em situação de vulnerabilidade. Com presença internacional e trabalho desenvolvido há décadas no Brasil, a instituição mantém no Paraná unidades em Munhoz de Mello, Londrina e Curitiba.

Mais do que um espaço de acolhimento, a REMAR busca oferecer uma rotina estruturada, baseada em regras, responsabilidades, convivência, trabalho, espiritualidade e preparação para a reinserção na sociedade.

E, por trás dos muros e das atividades do dia a dia, existem histórias de pessoas que chegaram ao local carregando diferentes marcas da vida, mas que encontraram ali uma possibilidade de reconstrução.

Entre essas histórias estão as de Alexandro da Hora Barbosa, 48 anos; Rafael Cardoso da Silva, 37; e Wellington Rafael Estevam, 29. Três homens, três trajetórias diferentes e um ponto em comum: a decisão de buscar uma mudança.

“Eu me considero um interno ainda”

Esta é uma foto de como Alexandro da Hora Barbosa chegou na REMAR, em Munhoz de Mello, há 3 anos e meio

Alexandro da Hora Barbosa é natural da Zona Leste de São Paulo e está na REMAR há três anos e meio. Chegou à instituição depois de enfrentar aproximadamente duas décadas de dependência química e uma situação de extrema vulnerabilidade.

Hoje, sua história é completamente diferente. Depois de passar pelo processo de recuperação, Alexandro tornou-se co-pastor e responsável por uma das casas da instituição.

“Me tornei co-pastor aqui por uma boa conduta, um bom exemplo e por um querer de uma transformação. Não imaginaria que eu ia ser responsável, líder de uma casa como essa”, relata.

Para ele, a mudança não significou abandonar sua família, mas abandonar o passado que o levou à destruição.

“Abri mão de todo o meu passado, não da minha família. Minha família é um investimento da terra que Deus nos deu, é um ministério”, afirma.

A trajetória de Alexandro é marcada por momentos muito difíceis. Ele conta que passou 20 anos envolvido com drogas, período em que sua dependência acabou afetando também seus familiares.

“Cheguei aqui destruído, 20 anos de drogadição. Passei pelo vale da sombra e da morte. Fui vítima da drogadição por 20 anos.”

Segundo ele, a dependência fez com que perdesse referências e chegasse a viver nas ruas, em condições extremamente precárias.

“Comecei a mendigar. Dormia debaixo dos caminhões, comia lixo. Fui encontrado numa cracolândia da vida. E hoje eu estou aqui.”

A experiência vivida fez com que Alexandre passasse a enxergar sua missão de outra maneira. Hoje, como líder, entende que sua função é também servir e ajudar outras pessoas que chegam à REMAR em busca de recuperação.

“Se eu sou um líder hoje, um pastor, eu estou aqui para servir essas pessoas que a gente resgata da rua.”

Alexandro afirma que atualmente se sente reintegrado à sociedade e que sua própria história passou a servir de exemplo para outras famílias que procuram ajuda para filhos, pais, maridos e amigos que enfrentam problemas relacionados às drogas.

“Eu sou um milagre”

Outra história que chama a atenção é a de Rafael Cardoso da Silva, 37 anos, natural de Itabuna, na Bahia, mas morador de São Paulo desde a infância.

Rafael chegou à REMAR depois de viver aproximadamente um ano em situação de rua. Segundo seu relato, a dependência química e outros problemas acabaram levando-o a perder praticamente tudo.

Ele conta que teve contato durante anos com álcool, cocaína, jogos e outras situações que contribuíram para sua queda. O próprio Rafael reconhece que se afastou dos ensinamentos recebidos da família e acabou tomando caminhos que o levaram a uma situação cada vez mais difícil.

Ao chegar à REMAR, encontrou um ambiente completamente diferente daquele que conhecia.

A convivência com outras pessoas, o contato com a natureza, a rotina e principalmente a espiritualidade passaram a fazer parte de seu processo de transformação.

Rafael afirma que uma das principais mudanças foi aprender a reconhecer os próprios erros e a necessidade de reconstruir sua vida.

“Eu sou um milagre”, resume.

Pai de dois filhos, um rapaz de 17 anos e uma jovem de 15, Rafael carrega também o desejo de recuperar a confiança da família e voltar a construir uma vida ao lado daqueles que ama.

Para ele, a recuperação exige mudança de comportamento e também das rotas do cotidiano. É preciso evitar os lugares e situações que podem levar novamente ao consumo de drogas.

Sua história também inclui períodos difíceis, inclusive passagem pelo sistema prisional. Hoje, porém, ele faz questão de comparar aquela realidade com a experiência que está vivendo na REMAR.

Para Rafael, não existe comparação: enquanto a prisão representava confinamento, a REMAR representa oportunidade, convivência, trabalho, fé e possibilidade de reconstrução.

Ele também procura transmitir aos recém-chegados aquilo que aprendeu durante sua própria caminhada: é preciso ter coragem para mudar, reconhecer os erros e construir novos caminhos.

“Eu escolhi a salvação para a minha família”

Com apenas 29 anos, Wellington Rafael Estevam, natural de Maringá e morador de Amaporã, também encontrou na REMAR uma oportunidade de interromper uma trajetória que vinha se agravando.

Ele conta que começou a usar cocaína aproximadamente três anos antes de chegar à instituição e que, a partir daí, sua vida “só afundou”.

Casado e pai de três filhos, Wellington decidiu procurar ajuda depois de perceber que não estava conseguindo vencer sozinho a dependência.

“Eu tentei sair sozinho, mas não consegui. Falei para minha mãe que precisava de ajuda”, relata.

A família tornou-se sua principal motivação para buscar a recuperação.

Os filhos, a esposa e a mãe são referências constantes em sua fala. Wellington diz que não quer que seus filhos cresçam convivendo com a realidade da dependência química ou sofrendo com a ausência do pai.

Seu desejo é voltar a ser aquele pai presente, trabalhador e participante da vida dos filhos.

“Eu quero ser um pai que ensina os filhos a trabalhar honestamente, que participa da vida deles.”

Depois de pouco tempo na REMAR, Wellington já dizia sentir mudanças importantes. Mais tranquilo e com a mente mais organizada, passou também a ajudar outros acolhidos que chegam à instituição.

A experiência fez com que ele compreendesse que a recuperação não acontece de um dia para o outro e exige acompanhamento, disciplina e continuidade.

Wellington também passou por uma experiência no sistema prisional e afirma que encontrou na REMAR uma realidade completamente diferente.

Ali, segundo ele, existe liberdade dentro das regras, contato com a natureza, atividades rurais, convivência e pessoas que estão buscando uma transformação.

No final de seu depoimento, deixou uma mensagem direta para quem enfrenta o problema: é preciso procurar ajuda.

“A vida passa”, afirma Wellington, destacando que sua escolha foi lutar pela própria vida e pela família.

“Eu escolhi a salvação para a minha família”, resume, ao falar sobre a decisão de buscar um novo caminho.

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Uma rotina baseada em disciplina e convivência

O trabalho desenvolvido pela REMAR possui uma rotina organizada. Os acolhidos cumprem horários, participam de devocionais, realizam tarefas, ajudam na manutenção do espaço, convivem em grupo e participam de atividades de lazer.

Na unidade de Munhoz de Mello, existem quartos para alojamento, cozinha, refeitório, sala de vídeo, área de lazer, igreja, campo de futebol, sala de jogos e espaços destinados às atividades com animais e cultivo de alimentos.

A proposta é fazer com que cada pessoa assuma responsabilidades e desenvolva novamente hábitos que serão importantes para sua reinserção social.

Alexandro explica que existem regras relacionadas aos horários, comportamento, higiene, convivência, acesso à rua e cumprimento das tarefas.

“Temos que ser cumpridores de regras”, destaca.

As atividades também podem envolver limpeza, cozinha, pintura, manutenção e outras tarefas. Pessoas que possuem habilitação e estão preparadas podem sair acompanhadas para auxiliar na busca de doações em mercados, padarias, açougues, feiras e outros estabelecimentos.

Segundo Alexandro, essa também é uma forma de preparar o acolhido para voltar a ter contato com a sociedade e recuperar responsabilidades.

Fé, trabalho e solidariedade

A espiritualidade ocupa lugar central no trabalho da instituição. A proposta da REMAR, segundo Alexandro, está ligada à ressocialização e à busca por uma nova vida por meio da fé cristã.

Mas o funcionamento da unidade também depende da solidariedade.

A instituição recebe apoio de doadores, patrocinadores, igrejas, profissionais, comerciantes, órgãos públicos e pessoas da comunidade que contribuem com alimentos, produtos e outros recursos.

Alexandro destaca que até itens básicos utilizados diariamente dependem, em muitos momentos, de doações.

“Vivemos à base da graça, da fé e de doações.”

A unidade conta ainda com apoio de profissionais e da rede pública, incluindo assistência social, serviços de saúde, CRAS e prefeitura.

Um espaço que procura oferecer uma nova oportunidade

De acordo com Alexandro, o trabalho da REMAR é desenvolvido em etapas. A primeira fase acontece em sítios como o de Munhoz de Mello, onde a pessoa passa por um período inicial de adaptação e recuperação.

Depois, conforme o processo, pode seguir para outras unidades, participando de atividades que buscam preparar para a ressocialização e o retorno à sociedade.

Ao final desse percurso, o acolhido pode retornar para sua família ou, se desejar e estiver preparado, permanecer como apoiador da própria instituição, como aconteceu com Alexandro.

Hoje, depois de três anos e meio na REMAR, ele se considera uma pessoa transformada e, ao mesmo tempo, alguém que ainda está em processo de servir e aprender.

“Não fui um interno. Eu sou um interno.”

A frase resume a maneira como Alexandro enxerga sua missão atualmente: não esquecer de onde veio e utilizar a própria experiência para estender a mão a quem está começando a caminhada.

Histórias diferentes, o mesmo desejo de recomeçar

As histórias de Alexandro, Rafael e Wellington são diferentes. Cada um chegou à REMAR por caminhos próprios, carregando dores, perdas e dificuldades particulares.

Mas os três encontraram algo em comum: a possibilidade de parar, refletir e tentar construir uma nova história.

Para quem chega, a instituição oferece regras e responsabilidades. Para quem permanece, oferece a oportunidade de aprender a servir. Para as famílias, representa uma esperança de recuperar alguém que muitas vezes parecia ter sido perdido para a dependência.

E, para os próprios acolhidos, cada dia representa mais um passo.

Alexandro, que chegou destruído após anos de dependência, hoje lidera e ajuda outras pessoas.

Rafael, depois de enfrentar a rua, a dependência e a perda de referências, fala em reconstruir a relação com os filhos e afirma: “Eu sou um milagre”.

Wellington, ainda jovem, decidiu buscar ajuda pensando principalmente nos filhos e na família.

São histórias que mostram que, por mais difícil que seja a caminhada, recomeçar é possível quando existe vontade de mudar, apoio e uma oportunidade.

Ao final da entrevista, Alexandro deixou uma mensagem de agradecimento aos colaboradores, patrocinadores e doadores que ajudam a manter o trabalho da instituição.

E escolheu um versículo bíblico para encerrar seu depoimento, uma passagem que, segundo ele, representa a força necessária para continuar a caminhada:

“Tudo posso naquele que me fortalece.”

Para quem passa pela REMAR, essa frase não representa apenas uma passagem bíblica. Representa também a esperança de que uma vida marcada por perdas pode ganhar novos capítulos — e que sempre pode existir uma oportunidade para começar novamente.